1   Halófitas

1.1           Introdução

As halófitas são plantas que toleram elevadas concentrações de sal e têm grande potencial biotecnológico para cultivo em regiões com solos salinos, podendo ser utilizadas no tratamento de efluentes da aquicultura, na geração de biomassa para alimentação de rebanhos, produção de probióticos, extração de óleos e produção de biodiesel (FREITAS, SOUZA & COSTA, 2010). Considerando que mais de 40% dos solos da Terra são semiáridos e quase 130 milhões de hectares apresentam problemas de salinização, o desenvolvimento dessa cultura é tema relevante (GLENN et al., 1998).

Plantas dessa espécie ocupam habitats marinhos, salgadiços marinhos, mangais da zona tropical e desertos salinos (FLOWERS et al., 1986). São plantas cuja massa seca aumenta com a presença de eletrólitos com níveis superiores àqueles que aparecem nas soluções de culturas normais (FLOWERS et al., 1977). Além disso, numerosas espécies de halófitas são não somente tolerantes ao crescimento em zonas salinizadas, mas também têm o crescimento estimulado pelo cloreto de sódio (NaCl) (YOUSIF et al., 2010). São espécies únicas por sua capacidade de acumular sais em suas folhas, em concentrações iguais ou superiores à da água do mar, sem prejuízo algum para a cultura. Essa acumulação iônica permite a manutenção do elevado conteúdo hídrico na célula, mesmo na presença de baixo potencial hídrico externo (FLOWERS et al., 1977).

A capacidade de sobrevivência em presença de grandes quantidades de sal é importante para a distribuição ecológica e para a agricultura da espécie. O “stress” salino nas plantas é provocado fundamentalmente por sais de sódio (particularmente o NaCl). Contudo, os mecanismos pelos quais as plantas conseguem a tolerância salina são bastante complexos (FLOWERS et al., 1977).

Em média, mais de 90% do sódio das halófitas encontra-se na porção aérea e, desse percentual, 80% nas folhas (FLOWERS et al., 1977). As halófitas diferenciam-se das glicófitas (plantas de meios não salinos) por sua morfologia próxima a das xerófitas (suculência dos caules ou das folhas, e redução das folhas) e por caracteres fisiológicos, designadamente o potencial osmótico e resistência à natureza e à concentração dos sais. As Chenopodiaceae apresentam a maior porcentagem de gêneros halofíticos (quase 44%) e o maior número de espécies, estimado em 312 (FLOWERS et al., 1986).

Apesar das plantas halófitas serem capazes de crescer e de se reproduzirem em condições de salinidade elevada, devido ao desenvolvimento de adaptações fisiológicas, esta é a condição que mais afeta a germinação das sementes (KATEMBE et al., 1998). No entanto, a germinação é uma das etapas mais importante no ciclo de vida dessas espécies, uma vez que pode determinar as condições do solo para as posteriores fases do ciclo de vida da planta (MOHAMMAD & SEN, 1990). Atualmente, existe crescente interesse econômico e ambiental no cultivo de algumas espécies de halófitas, gerando-se uma maior necessidade de conhecimento das condições específicas de germinação, conservando desse modo o patrimônio genético de cada ecótipo (LOPES et al., 2012).

 

1.2           Espécies

Espécies de halófitas se adaptam a ambientes salinos e há potencial de produção de cultivares irrigados com água salgada. Dentre elas, incluem-se as Salicórnias, que são plantas herbáceas da família Chenopodiaceae, que se dividem entre os gêneros Salicornia e Sarcocornia.

As Salicórnias são habitantes naturais de locais salinizados do litoral, como manguezais, banhados salinos e margens de salinas, é há representantes da espécie em todos os continentes (SHEPHERD et al., 2005). Sua localização varia desde zonas mais alagadiças a zonas mais altas e com melhor drenagem.

No Brasil, há ocorrência natural de Sarcocornia perennis (Miller) A. J. Scott, subespécie perennis (sinônimo Salicornia gaudichaudiana), geralmente em áreas em que há constante variação de marés, ficando a planta submersa por certo tempo ao longo do dia. É também chamada popularmente de erva-sal, nome vulgar também atribuído a Atriplex mummularia, outra espécie de halófita (PEREIRA, 2012).

A Sarcocornia ambigua (sinonímia de Salicornia gaudichaudiana Moq.) é nativa da costa Atlântica da América do Sul e vem sendo cultivada experimentalmente, através da irrigação com efluente salino da carcinocultura[1], no Rio Grande do Sul e no Ceará (COSTA, 2006). A espécie propaga-se através de sementes ou por crescimento vegetativo, com capacidade de rebrotamento posterior a poda. Apresenta desenvolvimento rápido (3-5 meses) e produção por safra semelhante à da espécie comercial Salicornia bigelovii, cultivada em várias partes do mundo (GLENN et al., 1998).

A fase mais crítica do cultivo de S. ambigua é o estabelecimento das plântulas, pois suas pequenas sementes (< 0,5 mg) geram plântulas frágeis e com radículas de poucos milímetros, sujeitas a altas taxas de mortalidade por dessecação durante a germinação e o estabelecimento (enraizamento) das mudas. Para aumentar o sucesso no estabelecimento em cultivos, as plântulas recém germinadas são colocadas em meio semissólido (Agar Agar) de 7-10 dias para desenvolvimento da radícula, antes de serem transplantadas para o solo (COSTA & NEVES, 2006)

Já a espécie Atriplex nummularia é originária da Austrália e pertence à família Chenopodiaceae. É uma entre as mais de 400 espécies do seu gênero. Há registros de ocorrência em diversas regiões áridas e semiáridas do mundo (LEAL, 2005), tendo um fácil estabelecimento, elevado potencial forrageiro, grande aceitabilidade e suporte proteico aos animais, especialmente os ruminantes, ovinos e caprinos (LEAL et al., 2008).

A Atriplex nummularia possui grande potencial para a produção de biomassa, acumulando grande quantidade de sais na parte aérea, em seus tecidos, com grande tolerância ao estresse hídrico (SOUZA, 2010). É utilizada ainda em paisagismo e na fitorremediação de solos salinos-sódicos, sendo uma alternativa para a recuperação de áreas ameaçadas pela degradação e desertificação (LEAL et al., 2008).

 

1.3           Manejo

Espécies do gênero Sarcocornia apresentam brotos mais carnudos no estado vegetativo e menos no estado de frutificação, o que provavelmente deve-se a maior disponibilidade de nutrientes para a produção de biomassa nos brotos durante o período de crescimento vegetativo. Essa característica de produção influencia diretamente o manejo, dependendo do objetivo do cultivo: quando a prioridade é produção de sementes, deve-se favorecer esse processo natural, de modo que a planta aloque o máximo da energia acumulada na floração; já para produção de brotos, devem-se adotar medidas para evitar o estado de florescimento, de modo a impedir a remobilização de energia (VENTURA et al., 2011).

O florescimento das espécies de salicórnia está diretamente ligado ao fotoperíodo e, dessa forma, induz-se a extensão dos dias através de iluminação artificial, o que atrasa a floração. Para as espécies do gênero Sarcocornia, devido ao ciclo de vida perene, uma boa opção para impedir o florescimento é a colheita periódica dos brotos (VENTURA et al., 2011).

 

1.4           Integração com outros sistemas produtivos

Projetos de maricultura[2] apresentam impactos ambientais sobre os ecossistemas aquáticos adjacentes, tais como o enriquecimento de nutrientes, redução do oxigênio, aumento da turbidez, mudanças na estrutura biótica e o aparecimento de algas oportunistas e tóxicas. Assim, o desenvolvimento sustentável desses cultivos pode ser realizado através do cultivo integrado com biofiltradores, que são animais e plantas capazes de produzir condições estáveis de qualidade da água, assimilando parte dos efluentes ricos em nutrientes. São, também, culturas adicionais que podem gerar um retorno econômico associado ao tratamento dos efluentes (KROM et al., 1995; YAP, 2002 apud LEITE, 2007).

Espécies de halófitas têm sido utilizadas de forma integrada com projetos de maricultura, considerando suas qualidades como biofiltradores naturais, dadas suas características de alta tolerância. Plantas do gênero Salicornia cultivadas em água salgada removem uma fração significativa dos nutrientes do efluente e podem fornecer um retorno econômico para o cultivador, como matéria verde para alimentação animal ou produção de fármacos. Essas plantas desempenham importantes funções de amenização das condições físico-químicas, trocas na salinidade e geoquímica do sedimento, que possibilitam a ocupação de áreas entre marés, antes inóspitas por espécies menos tolerantes a estresses ambientais (Bertness & Leonard 1997; Davy et al. 2001).

 

2   Instituições referências

·                    Programa Água Doce (Ministério do Meio Ambiente):

Site: http://www.mma.gov.br/agua/agua-doce

O Programa Água Doce (PAD) é uma ação do Governo Federal, coordenada pelo Ministério do Meio Ambiente em parceria com instituições federais, estaduais, municipais e sociedade civil, que visa estabelecer uma política pública permanente de acesso à água de qualidade para o consumo humano.

 

·                    Laboratório de Ecologia da Universidade Estadual do Ceará (UECE) – Laboeco

Site: http://www.uece.br/laboeco/

Pesquisador: Oriel Herrera Bonilla (oriel.herrera@uece.br)

Pesquisador que tem experiência na área de Ecologia da Restauração e Conservacionismo, com ênfase em Ecossistemas, atuando principalmente nos temas: Ecofisiologia de halófitas, salinidade do solo, permacultura, biodiversidade do semiárido, bioprospecção com plantas da Caatinga, e aproveitamento de recursos naturais.

 

·                    Instituto de Oceanografia - Núcleo de Aquacultura e Biotecnologia Marinha da Universidade Federal do Rio Grande (FURG)

Site: http://www.io.furg.br/

Pesquisador: César S. B. Costa (costacsb@hotmail.com)

Pesquisador que é especialista em ecologia de populações vegetais e vem atuando no cultivo de plantas halófitas visando a recuperação de habitats costeiros, o tratamento de efluentes salinos, a agricultura com água salgada e a produção de bioprodutos.

 

3   Referências bibliográficas

Costa, C.S.B. 2006. A Salicornia: uma planta que pode ser utilizada no cultivo integrado com o camarão. Panorama da Aquicultura, nov./dez. 2006, 28-33.

COSTA, CSB; NEVES, LS. Respostas Cromáticas de Salicornia Gaudichaudiana MOG. (Chenopodiaceae) a Diferentes Níveis de Radiação UV-B e Salinidade. Laboratório de Ecologia Vegetal Costeira, Departamento de Oceanografia, FURG, CP 474, 96200-901 Rio Grande – RS.

Freitas, RF; Souza, CR; Costa, CSB. 2010. Efeitos de Nutrientes e da Salinidade no Desenvolvimento Inicial de Plântulas da Halófita Sarcocornia Ambigua. III Congresso Brasileiro de Oceanografia – CBO. Rio Grande (RS).

Gheyi, HR. Problemas de salinidade na agricultura irrigada. In: Oliveira, T; Assis, RN; Romero, RE; Silva, JRC, eds. Agricultura, sustentabilidade e o semi-árido. Fortaleza, Universidade Federal do Ceará, Sociedade Brasileira de Ciência do Solo, 2000. p.329-345.

Glenn, EP; Brown, JJ; O’Leary, JW. 1998. Irrigating Crops with Seawater. Scientific American, 76, August: 76-81.

Katembe, WJ.; Ungar, I.A.; Mitchell, J.P. 1998. Effect of salinity on germination and seedling growth of two Atriplex species (Chenopodiaceae). Annals of Botany, 82, 167-175.

Leite, MS; Barros, FJA; Khoury, H; Bonilla, OHB; Costa, CSB. Cultivo de Plântulas de Salicornia gaudichaudiana Mog. para uso em Bioremediação junto a Viveiros de Criação de Camarão. Revista Brasileira de Biociências, Porto Alegre, v. 5, supl. 1, p. 297-299, jul. 2007.

Mohammad, S., Sen, D.N., 1990, Germination behaviour of some halophytes in Indian desert. Indian Journal of Experimental Biology, 28, 545-549.

 



[1] Cultivo de camarões em viveiros.

[2] Cultivo de alimentos marinhos para alimentação.